sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Feriado

Era uma terça-feira de Novembro. Eu voltava pra casa feliz da vida, afinal, teria o resto da semana de folga. Benditos sejam os feriados, motivo por o qual continuo sobrevivendo. Mas por que eu sempre pego esse horário de aulas? Voltava pra casa com o sol quente derretendo minha cabeça (isso por que já estava chegando a hora de anoitecer).

Pronto, só tinha que enfrentar uma ladeira pra chegar em casa, me jogar na cama, e ficar lá até segunda-feira. Os próximos dias seriam perfeitos, sem preocupações. E o estresse das provas finais passaria.

Então eu te vi. Na esquina da minha rua.

E em um segundo, eu era aquela garota assustada e imbecil de novo. O passado me deu um tapa na cara, e disse que havia chegado pra ficar. Minhas pernas tremeram. E as batidas aceleradas do meu coração confundiram meus pensamentos. Não estou dizendo nada disso de uma forma romântica, isso aqui é sobre o medo.

Deixei os fones de ouvido no máximo, abaixei a cabeça, olhei para o nada. Por que é tão difícil
passar despercebida? Você me viu e disse:

-Ei! Sua surda. Tô te dando oi, não tá me ouvindo?

Tirei os fones de ouvido, e pra voz na minha cabeça que dizia ''sai correndo menina, ainda da tempo'' mandei um ''vai se ferrar! ''. Afinal, eu corro de uma forma ridícula, e tinha muita gente na rua (bem, até hoje não tenho certeza se tinha mesmo. Mas na minha mente parecia estar lotada).

Respondi:

-Ah, foi mal (e apontei para os fones de ouvido). Oi!

-Oi. Cade o batom vermelho?

- Ah, não quis usar hoje (depois dessa frase veio a risada mais falsa que já dei na vida).

O resto não é importante. Acelerei meu passo a caminho de casa. Tomei um gole de água e me escondi no quarto. Me escondi do mundo, das pessoas, dele. Só queria ter aceitado o convite da minha amiga e ter passado na lanchonete. Assim nós não teríamos nos encontrado. Eu teria ficado bem, comido um ótimo risole, e aproveitado meu feriadão. Tarde demais...

É incrível como certas pessoas tem o poder de nos trazer todo um passado ruim. Gente que você conhece em uma fase horrível, e depois não consegue ouvir o nome sem sentir um frio na barriga (só que não do jeito bom). E aquele garoto me trouxe uma tonelada de memórias. Algumas (a maioria na verdade) nem tinham nada a ver com ele. Mas me faziam recordar uma garota medrosa, boba, indefesa, e cheia de magoa e ódio, em um coração que não suportava tudo isso.

O resto dos dias eu passei refletindo sobre quem eu fui, quem eu era naquele momento, e quem eu sonhava em ser. Não era culpa dele. Eu tinha que parar com aquela história de ''você estragou tudo''.
O feriado já havia sido estragado. Obviamente eu não tinha grandes planos, mas também não pretendia passar os dias chorando por conta de algo que já foi. Respirei fundo, tomei coragem, e apareci pro mundo novamente.

Hoje eu estou bem, totalmente. Finalmente entendi que a gente nem sempre se permite desfrutar da ''liberdade''. Eu por exemplo, me prendi a um passado, e deixei que qualquer um que tivesse feito parte dele estragasse o meu presente. Ah, mas que feio dona Paloma!

Não existe data, e nem horário. Não adianta esperar por ela. A liberdade só vem quando você se liberta daquilo que te prende.

5 comentários:

  1. Perfeitoooooo "Não existe data, e nem horário. Não adianta esperar por ela. A liberdade só vem quando você se liberta daquilo que te prende."

    Post novo no blog ☢
    I'm Radioactive

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    1. Obrigada Karoll! Fico feliz que tenha gostado ♥

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  2. cara, que texto bem feito. é isso mesmo gata, agente acaba se prendendo em coisas mesquinhas que nos fazem mal. se liberta, se joga, e vivaaaaa.
    xero
    http://desconstruindoblog.blogspot.com/

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