sábado, 19 de março de 2016

Passarinho

* Esse texto não tem nenhuma ligação com minha vida pessoal. Acontece que agora estou criando alguns contos com personagens fictícios (por que nem sempre minha vida é interessante né? haha).

Me lembro perfeitamente do momento em que decidi ir embora. Era 25 de Junho, eu observava a visão da janela do meu ônibus após ter passado o dia todo em minha cidade favorita. Sempre amei São Paulo e a loucura que é aquele lugar. Amava ser só mais uma estranha desconhecida na rua, amava o fato de ninguém perder seu tempo tentando me rotular, amava todas as coisas que eu podia fazer ali, amava sentir que meus sonhos não eram tão impossíveis quanto as pessoas de onde eu morava me faziam acreditar. O ônibus fez a curva e de repente a visão já se tornou familiar. A entrada do meu bairro era uma subida, e dali você conseguia ter uma visão geral de tudo. Confesso, era maravilhoso ver pôr do sol contornando cada uma daquelas casas. Afundei a cabeça no banco e percebi: aquele lugar nunca fora suficiente pra mim. 

Desde pequena ouço que minhas idéias são mirabolantes demais, que gosto é de inventar moda e que é bem melhor eu me ''aquetar'' onde estou. Cortaram-me as asas e me deram um futuro pronto. Era como estar fadada a um fim antes premeditado. Engole o choro menina (eu dizia a mim mesma). Mas conforme ia crescendo, crescia dentro de mim uma vontade louca de dar o pé dali. Queria mesmo era pegar minha mochila, jogar as roupas lá de dentro, calçar meus coturnos e sair correndo. 

- Mãe, um dia eu vou embora, sabia?

- É mesmo menina? E pretende fazer isso como? Tá pensando que é fácil assim é?

E depois disso ela ria, como se aquilo fosse só mais uma das minhas piadas.

- Pai, um dia eu vou embora, sabia?

-Tudo bem, agora me passa o controle da tv que o jornal já começou.

Só naquele dia 25 me ''aquetei'' de verdade. Minha família chegou a estranhar. Onde estavam os planos de morar sozinha, viajar o mundo e lançar um livro sobre como as experiencias valem mais que bens materiais? A verdade é que meu maior plano estava sendo bolado em silencio. Horas e horas trancada no quarto estudando as matérias que eu sabia que não me seriam uteis por muito tempo. Meus amigos não entendiam o por que de eu recusar os convites para o cinema, e nem o por que de eu ter começado a frequentar tanto a biblioteca. Simulados, redações e pesquisas. Achei que enlouqueceria, mas a vontade de voar era tanta que nem matemática me faria desistir. Passei na faculdade de jornalismo! A principio foi um espanto para aqueles a minha volta, afinal, não era eu que dizia que faculdade depois do ensino médio estava fora dos meus planos? Não era eu que iria tirar um ano para bater perna por ai? Calma meu bem, tudo irá fazer sentido. Comecei a frequentar minha São Paulo todos os dias, e apesar de sofrer ao sair as 5 da manhã de casa, era maravilhoso tirar os fins de tarde pra descansar no Ibirapuera. Nunca havia me sentido tão parte de algo.

A fase dois do plano foi iniciada quando, ainda no terceiro mês de faculdade, comecei a procurar um emprego. Distribuía currículos como se aquilo fosse a coisa mais divertida do mundo. Nunca cheguei a pensar que poderia não da certo e acredito que aquela minha fé infantil foi o que fez os astros conspirarem tão a favor de mim. Topava fazer de tudo, desde entregar panfletos na calçada até oferecer cartões de loja para pessoas totalmente desinteressadas. Depois de um tempo arranjei algo que me pagava o suficiente para alugar uma casa pequena na cidade e para conseguir fazer todas as refeições. Não deu outra. Minha mãe quase desmoronou quando dei notícia.

- Mãe, eu vou embora.

- Achei que você tivesse dado um tempo dessa história garota.

- Tô falando sério mãe. Já escolhi o local e a grana do aluguel já tá garantida. 

- ...

- Mãe?

- Como você é má agradecida menina! Te dei tudo o que precisava e mais um pouco e agora vai me abandonar? Boa mesma é a tua irmã, que nunca teria coragem de fazer isso comigo.

Eu sabia que ela não estava falando aquilo do fundo do coração. Depois de muito choro e uma lista enorme de concelhos (dos quais eu não consigo me lembrar nem da metade) ela se conformou com a ideia. O dia em que eu finalmente fui embora foi a principio doloroso, por que independente de quão desapegado você for, é sempre dificil abrir mão daquilo que é familiar. Mas ao deitar a minha cabeça no travesseiro e olhar para aquelas paredes até então desconhecidas pra mim, senti uma sensação assustadoramente boa, depois de um tempo vim a chama-la de liberdade. Olhei para a tela do celular e sorri ao ver a data: 25 de Junho.

Do fim de tarde em que resolvi ser a protagonista da minha própria vida até o dia em que concretizei meu maior sonho, se passaram dois anos. Os primeiros meses na casa nova foram uma bagunça total, as roupas sempre espalhadas por o chão e os livros sempre escondidos por os cantos. Volta e meia faltava um prato, um copo, uma cadeira. E era um orgulho tão grande que me dava a cada quadro novo que colocava na parede. Aprendi a amar cada tijolo desse lugar, e todo dia por a manhã suspiro aliviada por não ter aceitado aquele futuro pronto que me ofereceram. 

Arranjei outro emprego e com um dinheiro extra consigo conhecer os lugares que vejo na tv. Nunca sei aonde vou parar nos fins de semana, mas sei que vou a algum lugar que me renda boas fotos. A faculdade também tem sido maravilhosa. Sei que o jornalismo vai me proporcionar grandes histórias um dia. 

Nos feriados e nas férias de Dezembro fico com minha família. Aprendi a não dar bola para o olhar de desaprovação das tias que não aceitam o fato de eu ter escolhido uma vida que não se resume a ir a sorveteria do bairro no fim de semana, trabalhar de professora na escola onde estudava, ou casar e morar na mesma rua em que meus pais moram. Também não me importo com o discurso que minha mãe faz todo natal sobre como eu deveria voltar a segurança do meu lar (que na verdade nunca foi meu). Queria que todas elas soubessem como o mundo é enorme e quanta coisa a gente ainda tem pra ver. Mas principalmente, queria ela soubessem o quão importante é ter uma pequena aventura pra chamar de sua.

Essa é só mais uma das histórias que comecei a colecionar. A história de como corri atrás das asas que me foram arrancadas.

E hoje, aos 22 anos, eu me pego tentando explicar para minha mãe que ela deu a luz ao que, na realidade, era um passarinho.

4 comentários:

  1. Que post perfeito, tu tem que escrever um livro .
    Realmente muito bom, inspirador, posta mais posts assim ^-^.
    Beijos.
    Dreamy Princess♛ ✝
    Vídeo Novo, vem ver

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    1. Que comentário mais amor Ingrid ♥
      Obrigada mesmo (e quem sabe um dia não tenha alguma publicação minha em uma livraria né? haha).

      Beijão♥

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  2. Ah, que amor ♥ Adorei o conto. É sempre difícil ir embora, não é? Seja da vida de alguém ou pelo simples ato de realmente partir. Mas a sensação de liberdade é imensa. Um dia a gente aprende.

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    1. Obrigada Kelly ♥
      Um dia a gente aprende :)

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