terça-feira, 19 de julho de 2016

Resenha: Capitães da Areia

Foto: Lei It Be(la)
Não sei direito o que eu estava pensando quando peguei Capitães da Areia emprestado na biblioteca. Não que eu me orgulhe disso, mas clássicos são a coisa mais rara do mundo na minha lista de leituras. Sou aquela que não consegue se desprender dos bests-sellers, e que não dá muita chance para autores nacionais. Esse livro foi a prova definitiva de que preciso rever meus hábitos como leitora. Talvez na tentativa de pagar de intelectual, eu tenha me apaixonado completamente por a escrita desse cara chamado Jorge Amado.

Sinopse:
Clássico absoluto dos livros sobre a infância abandonada, Capitães da Areia assombrou e encantou gerações de leitores e permanece hoje tão atual quanto na época em que foi escrito. A história crua, comovente, dos meninos que moram num trapiche abandonado e vivem de pequenos furtos e golpes causou impacto desde o lançamento, em 1937, quando a polícia do Estado Novo apreendeu e queimou inúmeros exemplares do livro. Longe de manifestar a piedade por suas pequenas criaturas, Jorge Amado as retrata como seres dotados de energia, inteligência e vontade, ainda que cerceados pelas condições sociais hostis em que estão inseridos. Com sua prosa repleta de verve e humor, o escritor baiano nos torna íntimos de cada um desses personagens e nos contagia com sua obstinada gana de viver
Inicio a resenha dizendo que Capitães da Areia não é um livro fácil de ser engolido. Então, se você é daqueles que gosta de histórias com final feliz, sem muito drama, e que de preferencia fujam um pouco da verdade, procure outra coisa pra ler. Nestas páginas Jorge Amado esfrega na nossa cara a realidade (bem detalhada) de um grupo de meninos de rua da Bahia, que furtam para sobreviver. 

Para sentirmos um pouco do que está por vir, Amado começa o livro com uma série de noticias de jornal falando sobre os Capitães da Areia, e isso faz com que o leitor fique ansioso para saber quem são os menores infratores tão falados. Bem, a partir dai somos apresentados a um grupo enorme de meninos de rua, mas alguns deles são nossos protagonistas. São eles: Pedro Bala (o líder), Professor (o pintor, leitor e contador de histórias da turma), Gato (o malandro), Pirulito (o mais religioso), Sem-pernas (o mais amargurado), Volta Seca (afilhado de Lampião), João Grande (o de bom coração) e Boa-Vida (o sambista preguiçoso).
O livro é dividido em três capítulos. Na primeira parte nos é apresentada um pouco da história de cada um dos meninos, e o que os levou até aquele velho trapiche abandonado. Isso é definitivamente uma das coisas que eu mais gosto em qualquer livro, quando conhecemos o passado do personagem até chegar ali e nos tornamos próximos do mesmo. Nesta parte também ficamos sabendo das formas que o grupo arranja para levar a vida. Os furtos vão dos pequenos e simples, até os minimamente detalhados e planejados. Para realizarem alguns roubos eles chegam até a infiltrar um dos membros do grupo em uma casa por uns dias. Mas existem algumas outras formas de ganhar dinheiro. Professor pinta pessoas nas praças e vende as pinturas, Gato arranca dinheiro de sua amada Dalva e trapaceia em jogos de azar, Volta Seca e Sem-pernas até arranjam um pequeno bico cuidando de um carrossel no começo da história. De uma forma bem apertada e sem o minimo de conforto, eles vão levando a vida.

No primeiro capitulo também conhecemos personagens que enxergam os meninos, em meio a invisibilidade social. São eles: Padre José Pedro (que acredita que sua missão na terra é ajudar os garotos desafortunados), Don'Aninha (mãe de santo sempre procurada quando algum dos meninos esta doente) e Querido de Deus (maior capoeirista da Bahia, que volta  e meia arranja um trabalho sujo para os garotos realizarem).

A segunda parte da história é sem duvida a que mais me partiu o coração. A bexiga chega a Bahia e torna a vida dos garotos miseráveis ainda mais sofrida. Em decorrência da doença, duas crianças que perderam os pais entram para o grupo: Zé Fuinha e Dora (a primeira menina do bando). A entrada da garota é uma grande confusão no inicio, mas depois se torna uma das melhores coisas que já aconteceu aos Capitães da Areia. Neste capitulo também conhecemos os horrores do reformatório.

O terceiro capitulo é o desfecho da vida desses garotos. Alguns deles (aqueles pelos quais o leitor mais torcia) tem fins horríveis. Já outros, seguem a vocação que se fez presente em si desde sempre. De qualquer forma, foi dificil pra mim me despedir desses garotos depois de tantas aventuras e de tanto apego emocional. 
O mais bizarro de Capitães da Areia, é ver que apesar de a obra ter sido lançada em 1937, o livro permanece extremamente atual. Só não dá pra acreditar que ele foi escrito ontem por conta da linguagem (que apresenta palavras do tempo da nossa bisavó, mas o entendimento ainda é super de boa ok?). Mas a invisibilidade social ainda existe e muito! O livro me fez refletir sobre todas as vezes que fechamos os olhos para certas pessoas, como os meninos abandonados dessa história. E sobre os julgamentos que fazemos sem antes compreender o passado e o presente de alguém. Os ladrões criados por Jorge Amado não eram ruins por natureza, eles eram filhos da miséria e do descaso, lutando pra sobreviver em uma sociedade que ou queria dar um fim a eles, ou simplesmente os ignorava. 

Outra coisa que me assustou no livro é ver que a idade dos meninos não condiz com o jeito de agir dos mesmos. A maioria tem entre 10 e 16 anos de idade, mas falam e pensam como homens feitos. Afinal, a vida os forçou a largar a infância e crescer antes do tempo. 

Alguns outros pontos que me chamaram a atenção na história são o retrato da mulher naquela época (as cenas de estupro são descritas com a maior naturalidade) e a forma de agir da igreja ( que abria a porta apenas para o fieis que tivessem dinheiro). É louco e triste ver que essas dua áreas não
evoluíram 100% ainda. 
Enfim, se eu não me controlar falo sobre esse livro o dia todo. Já ficou mais que claro que recomendo essa leitura pra todo mundo, e que é impossível não se emocionar e se apegar aos famosos ladrões da Bahia. Essa é, sem duvida nenhuma, uma leitura que vai te fazer refletir e mudar sua forma de enxergar a sociedade.

Beijos e até o próximo post ♥ 

9 comentários:

  1. Amei a resenha! A um tempo já estou querendo ler clássicos nacionais, amo clássicos internacionais, a gente viaja pra outra época e entende realidades!
    Bjoo,Bia do Julieta ao contrário <3
    https://julietaaocontrarioo.blogspot.com.br/

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    1. Uma das minhas metas literárias é ler os clássico internacionais Bia! Sair um pouquinho da caixinha dos livros best-sellers do momento.

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  2. Fiquei com muita vontade de ler esse livro, pena que não sei se eu vou conseguir achar na biblioteca da minha cidade.
    De qualquer forma, mesmo sem ter lido o livro, parece que apenas nessa pequena resenha, eu consegui ser transportada pra história.
    É louco, mas juro ( de mindinho, hehe) que é verdade. É claro que ler o livro deve ser bem melhor, mas apenas com essa resenha eu consegui parar e refletir sobre como temas de anos atrás ainda continuam tão atuais.
    Outra coisa que me chamou atenção é que tem um personagem chamado/apelidado de pirulito, e na novela das seis também tem um personagem com apelido pirulito ( sim, eu assisto a novela das seis, não me julgue), que também é, ou melhor, ERA bem pobre, morava na rua e tudo mais. Será que foi inspirado nesse personagem ou é coincidência? Ou como diria o professor Braga: coincidência? Acho que não!





    www.manualdagarotaesperta.blogspot.com

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    1. Você também consegue encontrar ele em qualquer sebo da sua cidade Sofia! E o melhor é que os clássicos nacionais custam baratinho nos sebos.
      Adorei saber que a minha resenha te transportou, ao menos um pouquinho, para dentro dessa história incrível.
      Alias querida, você está falando com a pessoa que assiste a todas as novelas da seis (me tornei noveleira esse ano, nem sei o por que haha). E agora que você falou foi que percebi, faz sentido o nome do personagem da novela ter sido baseado no Pirulito desse livro.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Fiquei com muita vontade de ler esse livro, pena que não sei se eu vou conseguir achar na biblioteca da minha cidade.
    De qualquer forma, mesmo sem ter lido o livro, parece que apenas nessa pequena resenha, eu consegui ser transportada pra história.
    É louco, mas juro ( de mindinho, hehe) que é verdade. É claro que ler o livro deve ser bem melhor, mas apenas com essa resenha eu consegui parar e refletir sobre como temas de anos atrás ainda continuam tão atuais.
    Outra coisa que me chamou atenção é que tem um personagem chamado/apelidado de pirulito, e na novela das seis também tem um personagem com apelido pirulito ( sim, eu assisto a novela das seis, não me julgue), que também é, ou melhor, ERA bem pobre, morava na rua e tudo mais. Será que foi inspirado nesse personagem ou é coincidência? Ou como diria o professor Braga: coincidência? Acho que não!





    www.manualdagarotaesperta.blogspot.com

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  5. Fiquei com muita vontade de ler esse livro, pena que não sei se eu vou conseguir achar na biblioteca da minha cidade.
    De qualquer forma, mesmo sem ter lido o livro, parece que apenas nessa pequena resenha, eu consegui ser transportada pra história.
    É louco, mas juro ( de mindinho, hehe) que é verdade. É claro que ler o livro deve ser bem melhor, mas apenas com essa resenha eu consegui parar e refletir sobre como temas de anos atrás ainda continuam tão atuais.
    Outra coisa que me chamou atenção é que tem um personagem chamado/apelidado de pirulito, e na novela das seis também tem um personagem com apelido pirulito ( sim, eu assisto a novela das seis, não me julgue), que também é, ou melhor, ERA bem pobre, morava na rua e tudo mais. Será que foi inspirado nesse personagem ou é coincidência? Ou como diria o professor Braga: coincidência? Acho que não!





    www.manualdagarotaesperta.blogspot.com

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  6. Faz muitos anos que li essa livro!! Vc me despertou a boa lembrança de ter viajado pela páginas de capitaes da areia.É uma leitura forte e reflexiva, mas vale a pena. Bjs

    Www.gleisecaires.com

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