domingo, 13 de novembro de 2016

Meus pontos finais

Eu não sei escrever bons finais para as histórias que começo. É estranho. Parece até que perdi alguma aula de português sobre pontuação ou que alguém me ensinou que o certo é usar reticências para dar fim a algo. Sempre fui assim, desde bem pequenininha. As respostas para encerrar qualquer problema meu eram bem simples:

A) Fazer a egípcia (o famoso ignorar).

B) Adiar (que uma hora ou outra some).

C) Criar uma desculpa (mais fácil e menos estressante).

D) Todas as anteriores.

Na minha visão, pingar o pontinho final em um caso mal resolvido equivalia a fazer um X sobre alguma das alternativas acima. Ah, mas como me envergonho disso agora. Acabei por perceber que essa era a formar mais egoísta de acabar com algo, já que era um enceramento válido só pra mim. Os outro personagens do enredo acreditavam que a trama continuava, ou que só havia feito uma breve pausa. Eu podia dizer que olhar só pro próprio umbigo é defeito de leonina, mas nós dois sabemos, é defeito meu. 

Esse fato ocupou de vez a minha mente na ultima quarta-feira, quando voltava do centro da cidade para minha casa. Meu melhor amigo cochilava no meu ombro, meu fone de ouvido tocava uma moda qualquer da MPB, o solzinho do fim de tarde iluminava as ruas do lado de fora da janela e você estava ali, mesmo estando em outro lugar.

Pensei sobre o ultimo feriado, dia em que te conheci. Eu tinha tanta atividade pra fazer, mas resolvi colocar meu vestido de borboletas, jogar alguns lanches na mochila, chamar umas três amigas e ir para o parque. Minha mãe disse que era melhor remarcar pro fim de semana, mas sou teimosa e a escola podia esperar né? Eu devia ter ouvido ela, e você deveria ter ouvido a sua mãe também. No final elas sempre tem razão. Se ficássemos em casa essa situação toda nunca teria sido criada, ou ocorreria em algum universo paralelo por ai. 

Eu te achei meio esquisito pra falar a verdade. Quem é que se senta com um bando de pessoas que nunca viu na vida e começa a puxar assunto? Hoje em dia, pelo que sei, ninguém. Mas também te achei bonitinho: o cabelo bagunçado, os olhos meio fechadinhos, a camiseta de algum time de basquete qualquer. Você desatou a falar como quem está animado pra contar um acontecimento inédito e, depois de algumas horas, eramos todos amigos. E daqueles chatos que corrigem o português uns dos outros. Eu cheguei a te contar que naquele dia disse para as minhas amigas que meu coração nos levaria até o melhor lugar do parque? 

Não! Permaneço sem acreditar em destino.

Fico feliz por não ter passado batom, por que você o teria borrado. Fico angustiada por não ter sido mais clara, por que você se confundiu. Me contou sobre seus sonhos: quer ser advogado, quer ajudar quem sofre injustiça, quer mudar o mundo pelo menos um pouquinho. Me contou sobre as músicas, sobre a escola, sobre as amizades e antigas paixões. E eu? Me encolhi. Por que custo a revelar minhas manias, pensamentos e ambições. Não falei do Jornalismo, da escrita, das viagens, de Los Hermanos, de Publicidade ou de qualquer coisa que fizesse parte de mim. Tudo bem, você acharia que é uma perca de tempo mesmo. É desses.

Nos despedimos na ultima estação. Cada qual para o seu lado. Um ficou com a promessa de um reencontro e o outro com a certeza de que a vida estava conturbada demais para receber mais alguém. 

Me desculpe por ter desperdiçado seu tempo. Tentei deixar claro, em todas as conversas que se seguiram, que eu não sirvo pra isso. Que vivo uma fase tensa e corrida e que nem eu mesma consigo lidar com todas as minhas complicações. Você disse que aquele foi um dia de sorte, que também não está numa maré tranquila, que tem mil e um problemas mas quer se arriscar a adicionar mais um a lista por algo que sentiu quando me viu. Eu não senti tanto assim e não senti dessa maneira. E você não sabe o que são problemas, ainda é muito novo pra saber. 

Quando cheguei em casa na ultima quarta-feira e mudei meu número de telefone, não senti nada, nadinha mesmo. Afinal, daqui a pouco eu nem faço mais parte das suas memórias. O tempo passa a borracha lentamente e a gente nem percebe, fica tranquilo. Mas nesse exato momento, tem alguma coisa cutucando meu estômago e me deixando aflita. E acredito que, pela primeira vez, vejo o quanto sou injusta.

Entendi que histórias, por mais que curtas, não são finalizadas assim. Eu fiquei te devendo um ponto um final, ponto esse que eu devo a muitas pessoas. Me perdoe por isso. E saiba que não ter dado uma ultima palavra vai me afligir durante um tempinho.

Lição aprendida. Sigamos em frente.

Acho que talvez essas crônicas sejam meu verdadeiro ponto final.

3 comentários:

  1. Adorei sua escrita, adorei esse texto, adorei a forma como sua personagem não pos um ponto final porque tenho essa mania também, é um pouco de covardia misturada com orgulho. Deus tenha piedade da gente

    Ganhou uma leitora nova <3

    http://pequenamiia.blogspot.com.br/

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