domingo, 18 de dezembro de 2016

Eu ainda vou embora

Eu ainda vou embora, você sabe disso não é? Sabe que um dia eu jogo minhas malas na cama e guardo as roupas uma por uma dentro delas, lentamente e com o maior prazer do mundo. Consigo até te ver no canto do quarto com aquela cara de desaprovação que, convenhamos, se tornou a unica que você tem. Com os cantos da boca virados para baixo desse jeito parece até um desenho animado, mas não como aqueles que eram minha companhia na infância. Se parece mais com os irritantes e repetitivos, que me faziam levantar do sofá pra pegar o controle e mudar de canal. E lá estou eu mudando de canal de novo. Chamo o táxi que me leva até a rodoviária e no meio do percurso coloco meus fones de ouvido, quero esquecer todas as as palavras de condenação que me disse (sua unica arma) e tomar coragem o suficiente pra dar esses passos sozinha.

No fundo você sempre teve esse medo né? Desde que descobri que podia voar e sair rodando mundo a fora. Tentou cortar minhas asas e quando viu que eu não ia deixar isso acontecer, resolveu que o mais eficiente mesmo era me fazer desacreditar nelas. E as vezes eu desacreditava. Deixava que amarrasse uma âncora a mim e me firmasse onde você também estava. Me sentia como balão na mão de criança: querendo conhecer o céu e sendo puxado por uma força maior. Mas para o seu azar, eu descobri que também era forte. 

Tenho essa visão vívida e real na minha mente. A passagem em uma mão, a mala na outra. Eu entro em algum ônibus cujo o destino é a unica coisa que ainda não sei nesse momento. Mas sei que estou nele, e vou pra longe de ti. Posso vê-la me visitando de vez em quando, reclamando sobre como o apartamento é pequeno, sobre como a rua é movimentada demais para o seu gosto e sobre como os quadros que escolhi são feios. Mas não me importo. Não me importo com a poeira que você diz ver, com a crise alérgica que os pelos dos gatos te causam e com a forma com a qual você odeia os pobres bichinhos. Agora a sua opinião não faz nem cosquinha em mim. O lugar é meu e só meu. Eu não preciso mais aceitar suas ordens sem cabimento e sentido. Alias, comprei pra decoração tudo aquilo que você achava inútil e isso me fez um bem danado.

Me arrepio só de pensar nisso. Consigo sentir a paz de andar por uma casa onde o único som venha das minhas playlists. Ninguém pra soltar um ''ave maria'' quando as canções começam a tocar. E eu canto mais alto do que nunca, e como canto! Acredite, o som da obra no apartamento do vizinho de cima me soa mais suave que seus gritos e discussões. E voltar pra casa depois de um dia estressante e não encontrar ninguém lá para piorar as coisas é absolutamente incrível. O ato de voltar não é mais um sacrifício.

Te vejo dando de ombros quando vê minhas novas tatuagens. A maioria delas representa liberdade e esse conceito você não entende. E agora se irrita ainda mais com minhas escolhas. Com o fato de eu economizar tanto para viajar para os lugares que sempre disse que conheceria. Com os amigos que nunca foram do seu agrado, porque preconceito e julgamentos sempre falaram mais alto. Com as lembranças que trago dos lugares aos quais vou nos fins de semana. E com o dinheiro que eu ganho trabalhando duro pra caramba. Por que te doí tanto ver que não tenho correntes ligadas a alguém? Por que fica tão brava ao ver que sou dona de mim agora?

Sempre me perguntei se você também arma as suas cenas quando eu não estou por perto pra assistir. 

Nós duas sabemos que não é pra ser assim, mas depois de um tempo eu assumi uma posição de plateia na sua vida e nada mais sou do que isso. Você não pensa em me poupar, quer mesmo é que a sua dor se faça minha. Qual o problema de sofrer sozinha? É dificil não arrastar alguém pro fundo do mar contigo? Me afogo milhares de vezes tentando entender como alguém que amamos tanto pode não perceber que está nos matando. Mas é que de repente, eu sou como boneco de plástico: sem sentimento ou reação. Eu vou te perdoar não é mesmo? É minha obrigação (em sua mente). Mesmo sem apoio, aceitação ou o minimo de sensibilidade da sua parte, eu perdoou. Mesmo que isso me destrua um pouquinho mais a cada nova decepção. 

E com tudo isso eu só espero que você tenha entendido que um dia vou embora, mesmo sem a sua fé em mim. Eu faço minha vida, eu arranjo meus problemas, eu puxo a liberdade pra dançar. Crio até meus próprios conflitos internos, e esses vão ser unicamente meus. Vou me livrar da água nos pulmões, esquecer a tristeza e seguir em frente a algumas milhas de distancia. Escuto um voz frágil e baixa dizendo ao meu ouvido que esse devaneio em breve vira realidade.

Guarde o que digo: eu ainda vou embora, e o que vai ser de você quando não houver mais público algum?

2 comentários:

  1. Lindíssimo texto.
    Mas eu perdi minha mãe há seis meses atrás e ela era praticamente como a mãe (pelo menos eu entendi que a narradora fala sobre a mãe) do texto.
    Acredite em mim, pode ser que você sinta falta das brigas, das reclamações quando você ouve música num estilo que ela não gosta, quando você deixa algo fora do lugar ou mesmo quando ela reclama dos amigos.
    De qualquer forma o texto está maravilhoso - pra variar - e você descreveu perfeitamente o sentimento de liberdade e as atitudes da mãe a cada ação e isso foi maravilhoso. Parabéns.
    <3

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    1. Oi Kelly, tudo bom?

      Fico muito feliz em ver que você entendeu do que a crônica se tratava e te-la entendido de verdade! E mais feliz ainda em saber que você gostou ♥ Sobre a sua mãe: eu não posso dizer que entendo esse tipo de saudade agora porque nunca perdi alguém muito próximo a mim. Mas posso imaginar o quão dificil deve ser e te mando todas as forças positivas do mundo pra encarar essa situação.

      Sobre a crônica: não tem nenhuma conexão real com a minha vida, a personagem é totalmente fictícia.

      Beijão ♥

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