domingo, 12 de março de 2017

De fases

Eu o encontrei perto daquele bar na Avenida Paulista. Você sabe qual é, todo mundo sabe. Basta a noite cair para o lugar se tornar uma das coisas mais bonitas e cheias de vida da cidade (ao menos ao meu ver). Já era tardinha e o sol de fim de dia contornava a imensidão de pedra, quase que convidando quem estava naqueles prédios a sair e reunir os amigos em volta de uns copos de cerveja gelada. O ar era quente, mas estranhamente bom de se respirar. No Starbucks pedi o refresh de frutas vermelhas de sempre (por que é que eu tenho tanta dificuldade para conhecer algo novo?) e cantarolei o finalzinho de Dani Califórnia que vinha de algum local próximo. Vou ser sempre apaixonada por o fato de essas ruas possuírem uma trilha sonora própria e loucamente eclética. Quase da mesma forma com a qual amo esse vai e vem de formiguinhas que tem agendas apertadas demais para se importarem com a vida umas das outras. O horário no meu celular indicava que dali a pouco seria hora de voltar para onde as formigas se importam. Meu estômago revirava.

A exposição no prédio da Fiesp terminou por decepcionar um pouco a mim e as duas amigas que me acompanhavam. Assim como as fotos tiradas no Trianon. Elas decidiram que nunca é tarde demais para conseguir um bom click, mas minhas pernas diziam que sim, as vezes é tarde demais para algumas coisas. Me sentei em uma das cadeiras que ficavam do lado de fora de uma lanchonete parada e torci pra que ninguém viesse dizer que o privilégio de descansar a coluna só é disponível para freguês. Os ambulantes que faziam seu trajeto por ali acenavam com a cabeça e eu sorria de canto de boca, meio querendo ser simpática, meio querendo não ser convidativa. Encarei minhas botas, questionando de onde diabos aquelas manchas de tinta azul clara teriam surgido. Por preguiça ou indiferença, achei que seria melhor deixa-las ali. 

E então eu as ouvi. Eram as primeiras notas de Read My Mind tocando. E o coração que até ali mantinha-se calado e tranquilo, resolveu se manifestar. Bateu acelerado como poucas vezes antes, e eu que nunca tive muito entendimento do que acontece dentro de mim, cogitei a ideia de estar tendo um leve ataque cardíaco. Quem poderia dizer que não afinal? Sou jovem, mas os mal hábitos alimentares prometem me dar um susto qualquer dia desses. Susto como o que levei quando esse bendito órgão confuso resolveu dar um duplo twist carpado de causar inveja a qualquer ginasta. Talvez a respiração acelerada quisesse me alertar sobre o que estava prestes a acontecer, mas ainda continuo sem acreditar em sinais. 

Eu deveria alegar aqui que aquela era só uma menina empolgada demais por ouvir uma das melhores de sua banda favorita tocando em alto e bom som (como deveria ser feito com qualquer boa música). Mas não pretendo mentir (por hoje). A verdade é que aquele estava sendo o ponto alto de uma série de dias ruins, que julguei serem intermináveis. Você já se sentiu perdido? Se sim, pode afirmar junto comigo que essa esta no ranking das piores.

Sempre comprei brigas que não possuíam bons fundamentos, admito, mas dessa vez eu era inocente, juro! Por algum motivo que talvez eu nunca chegue a saber, a vida resolveu que seria ela a arrumar uma pequena confusão comigo. Arrancou das minhas mãos o velho mapa surrado e me mandou em viagem. Sim, eu me lembro de quando disse que queria viajar, mas não era disso que estava falando! Ela sabia muito bem que minha inteligência espacial era pouca, qual a necessidade de piorar ainda mais a situação?

De repente era eu e só eu. Sentada ali no cantinho escuro da sala sem nenhum amigo pra brincar. Eu podia ouvi-los me chamando, mas não sabia quem seguraria a minha mão e quem iria me empurrar ainda mais pra baixo. Parece loucura e não pretendo dizer isso em voz alta, mas quando estou triste, o inverno passa do hemisfério que for para dentro de mim. Do emocional ao físico, consigo sentir o vento gelado por dentro do peito. Quem se arriscar a estudar esse que é talvez um dos fenômenos mais intrigantes da natureza, aceita ser  chamado de louco. Ou se sentir como a peça a mais no quebra-cabeça completo, da forma que eu me sentia.

Não me venha com papo de crises existenciais amigo, eu não sou dessas. Sou é de fases. Das boas e das de merda. Que as vezes passam rápido e as vezes consomem meus meses.

Olhei para cima e a voz que viria a ser a minha preferida cantava bem alto ''I got the green light, i got a little fight''. Eu cantei junto e senti o ar abafado do local entrando no meu peito. Era bom e reconfortante. Era como estar em paz e completa. Ele tinha a barba por fazer, uma camiseta velha do The Smiths, uma tribal idiota no braço direito e um violão na mãos. Também tinha olhos castanhos acolhedores, um sorriso enorme e divertido, e alguns mil e um defeitos e qualidades que eu descobriria nos fins de semana seguintes. O preto da noite fez minhas amigas esquecerem as fotos e gritarem meu nome para que fossemos logo a estação. Virei meu rosto para mandar um ''já vai'' alto e irritado, e quando voltei minha cabeça em direção a banda que cantava na rua para descolar alguns trocados, o ponto final da minha fase ruim me encarava.

- Oi 

Ele disse.

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