domingo, 24 de dezembro de 2017

Tudo o que eu tenho

Meus olhos varreram a cerimônia de formatura procurando por você, não te encontraram. É quase que automático, como eu fazia no pátio da escola, nos meses que seguiram depois que fui embora. Não, eu não me orgulho disso, mas também deixei a culpa de lado. É como um modo de defesa que está sempre ligado, pronto pra quando você tentar me machucar de novo, mesmo sabendo que isso não vai acontecer. Ali naquela hora, usando uma beca que me fazia odiar o calor dos dias ensolarados que geralmente amo e tendo que abraçar todo um pessoal, não me demorei no porque de a senhorita ter resolvido não ir ao que era o fim tão aguardado por todo mundo. O fim de um capítulo tão pesado pra mim e o fim de só mais uma página medíocre na sua vida. Bem, pensando sobre o assunto agora, consigo até te ver  revirando os olhos e dizendo, com um tom piorado da sua voz já amarga, o quão tudo aquilo é bobo. Vai parecer loucura, mas te entendo! Você não tem ninguém para dividir esses ritos de passagem, fazer promessas impossíveis, tirar fotos e compartilhá-las no facebook com aqueles textos enormes e bregas... Droga, analisando melhor, acho que você só não tem ninguém mesmo. 

Eu queria não estar em frente a esse computador agora, escrevendo sobre você no que parece ser o inicio de um dia lindo e muito promissor. A correria dos preparativos para o natal começou (daqui a pouco a cozinha se enche de cheiro de chocolate), vou visitar umas amizades antigas mais tarde e encontro minhas melhores amigas amanhã no centro da cidade (nós duas já fomos juntas até lá tantas vezes né?). Parece não haver mais sentidelao em digitar essas palavras, eu temo que elas me engulam ao invés de me libertar, mas ainda acredito que essa é minha melhor terapia. De qualquer forma, sou grata por elas, pois tenho um lugar saudável e aconchegante onde me refugiar em momentos como esse, momentos em que a sua voz ecoa, baixinha, no fundo da minha mente; mas você também tem suas próprias formas de escapar do caos, né? Aliás, muito mais eficazes e instantâneas do que qualquer hobbie meu. Elas até tem um preço mais barato que meus livros. Você as encontra em mercadinhos de esquina dentro de uma garrafa, ou no ingresso de uma festa que se parece com todas as outras. 

Admito, com felicidade, que já doeu muito mais. Em algumas manhãs aleatórias ou fins de tarde deprimentes, as coisas mais cruéis que você já me disse ainda retornam e meu coração aperta, de raiva e não de tristeza. Raiva porque passei muito tempo sem saber que era seu brinquedo preferido. Não tentei nadar até a superfície e deixei que sua mão, agarrada ao meu tornozelo, me arrastasse até o fundo do que parecia ser o mar. Mas isso já não é algo tão frequente. Estou me curando, não é maravilhoso? Bem, talvez não pra você, mas pra mim sim; pra minha mãe que sofreu junto comigo e com o drama em que você me colocou, mesmo sem saber direito do que se tratava, também. Mas eu tenho um segredo, uma espécie de pilar no qual me apoio quando sinto que o ódio esta tentando criar raízes dentro de mim, se eu te contar, talvez ele salve o seu coração também. Me escute, de uma pausa nas fofocas maldosas e preste atenção: quando sinto que vou surtar, penso em todas as coisas que tenho. Isso mesmo! Meio criança mimada, meio "eu tenho e você não". Será que isso me faz um ser humano detestável? Ah... Qual é? Duvido que consiga chegar ao seu nível (parabéns, ainda consegue ganhar de mim em algo).

Nos dias ruins eu penso na minha mãe, cozinhando purê de batata com queijo, só porque sabe que é o meu preferido. Também lembro das mensagens de "eu te amo" inesperadas que volta e meia chegam no meu celular, porque meus amigos não precisam de uma data especial ou acontecimento para dizer isso (aliás, você ficaria surpresa com como nós falamos o que precisa ser dito na cara, sem esperar que alguém vire as costas). Eu lembro dos recitais de ballet que volta e meia assisto, porque é importante para minha melhor amiga. E penso nas paredes rosa do meu quarto, nos desenhos feitos pela minha irmã que o decoram e nos livros espalhados por ele (ainda tenho que ler tantos). Ah, eu também tenho as palavras, este blog, minha vontade de contar histórias e todos os lugares que pretendo conhecer. Não posso esquecer de uma lista enorme de sonhos e uma dedicação e esforço do cara*** que tenho para realizá-los. Esqueci de explicar, sobre esses últimos, são coisas que exigem paciência e cansaço, então acredito que você não deve conhecê-los. 

Loucura eu ser grata até por a cadeira azul claro que agora fica no meu home office, mas é uma coisa minha essa mania besta de agradecer coisas pequenas que me fazem sentir rica. São elas que me completam e me fazem não ter que reduzir ninguém para ser feliz comigo mesma, como você faz. Olha, eu não sei o que você tem, mas garanto que seus tesouros são diferentes dos meus, até porque (felizmente) ainda não possuo umas poucas companhias que ironicamente só estão lá na hora de beber e dar risada. Também não é um hobbie meu julgar tudo/todos nas minhas horas livres, porque alguém gastaria tempo com algo tão sem conteúdo? Sem contar estes teus dramas familiares, os meus eu reverto em coisas positivas, os teus te consomem. Cara, você é tão fazia que pode ser atravessada por qualquer coisa ruim e, agora, eu transbordo histórias doces.

Desculpe, nunca fui de me gabar, mas quando se trata de você até que é divertido. 

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