terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Com amor, sua melhor amiga

Sejamos francos, acho que você se tornou meu melhor amigo muito antes do sentimento ser recíproco. Eu nunca notei, afinal, nos conhecemos quando tínhamos uns cinco anos de idade e ter um amigo garoto me parecia uma das coisas mais legais do mundo. Teoricamente era pra ser mais simples, mas vendo a situação de longe percebo que nunca foi, na real, foi quase um empate com as relações de amizade que tive com garotas, talvez, em uma pequena porcentagem, mais complicada. Mas você não prevê as coisas quando tem cinco anos de idade, e continua brincando no parquinho do pré escolar e formando casal para as festas juninas com aquela pessoa.
Crescemos um pouquinho e quando eu vi você era o que o pessoal nos filmes e séries chamam de alguém "popular". Ah, não era pra menos, sempre te achei tão talentoso, extrovertido, engraçado... Uma hora ou outra iam começar a notar isso. Mais rápido do que eu esperava você estava andando com a galera mais velha da escola e isso te fez parecer tão legal né? Então eu passei a te ver só nas fotos publicadas em redes sociais que ainda começavam a viralizar naquela época. Eram registros seus com todas aquelas pessoas com quem eu nunca tinha conversado na vida, porque você não as apresentava pra mim. Lembra da sua infantilidade e cisma besta em não querer que as várias panelinhas que frequentava se misturassem? Sei que me lembro de achar tudo isso uma enorme bobagem e querer sempre reunir todo mundo que gostava em algum passeio. Você nunca ia, mas calma, não era por não fazer questão, eram só casos de conflito de agenda. Eu sentia sua falta e me perguntava onde teria ido parar o menino que pensava estar apaixonado por mim quando tínhamos oito anos de idade. Bem, no meu aniversário de quinze anos você foi parar em algum lugar muito mais divertido do que o parque que eu escolhi... Engraçado, achei que tinha me dito que não poderia faltar a um ensaio superimportante do teatro. Facebook e suas postagens, destruindo relações desde quando eu achava que as coisas duravam para sempre.
Okay, eu continuei lá, do seu lado, mesmo que você só me chamasse pra sair quando aparentemente ninguém mais podia te acompanhar a algum lugar entediante. Mas nós dois conversando sobre a vida, sobre o que queríamos ser no futuro, sobre como a convivência com os pais continuava péssima e sobre tudo o que parecia ter o peso do mundo naquela época, era único. Se pudesse, eu teria guardado todos esses momentos em uma caixa e os protegido com todas as minhas forças. Ali era você, sendo você. Sem tentar fazer com que gostassem da sua pessoa e sem se esforçar para se encaixar em grupinhos nos quais talvez não coubesse. Uma versão sem escudos. A minha versão favorita.
Quando estávamos a um passo do ensino médio tudo aquilo aconteceu: as pessoas que você perdeu, o relacionamento cada vez mais complicado com seu pai e a descoberta de que, na verdade, a sua preferência sempre foram os garotos. Era um prazer pra mim virar as madrugadas trocando mensagens e discutido tudo isso contigo, mas como era de se esperar, suas notificações deixaram de chegar assim que todos te amaram na sala nova. Tudo bem, eu estava encantada também: eram novos professores, novas pessoas e novos lugares que passei a conhecer. De repente, te ter do meu lado não era mais tão importante porque, na verdade, nunca houve você ao meu lado. Mas olha só, eu estava distraída e você notou. Passamos os anos seguintes nesse vai e vem resumido em eu deixar de me importar e você escrever textos e textos sobre como sentia minha falta. Então, em algum momento, eu virei a melhor amiga. Aquela marcada em todas as publicações, que recebe declarações sem motivo aparente. Porque me incomodou parecer tão especial?
Nos meus dezessete anos eu tive aqueles surtos, se lembra? Tenta puxar na memória, se esforça. Tudo bem, tá difícil. Eles aconteceram na mesma época em que você teve que lidar com um bando de problemas familiares, todos mais pesados do que qualquer questão minha. "Qualquer coisa" você viria me visitar, mesmo com uma depressão e ansiedade que ameaçavam me engolir. Qualquer coisa... Se pensasse mais um pouco sobre isso você veria que "qualquer coisa" nunca se encaixou naquele contexto. Mas olha só, eu sobrevivi, não ilesa, mas curada. Curada pelo amor de pessoas que valem mais a pena.
Agora sejamos mais francos ainda: eu também não importo mais (e não tô planejando me culpar por isso). Notei nas últimas semanas que, mesmo me sentindo meio sozinha às vezes, a última pessoa com quem quero desabafar no fim do dia é você. Nós não fazemos mais planos juntos e isso, impressionantemente, não me faz falta alguma. É como se, no final da história, a vida se se encarrega-se de colocar tudo em seu exato lugar. Eu, meio sem querer, me tornei uma versão sua, sem fazer questão e sem interesse. Já você, virou qualquer coadjuvante que não consegue prender minha atenção ao longo do filme. Olha, desculpa não te chamar de melhor amigo de volta ou parecer lisonjeada quando diz que sou especial, é só que, quando alguma das minhas melhores amigas me diz isso soa bem mais legal!
Não que eu deixe de vez de responder suas mensagens, não que eu nunca mais te encontre por ai, não que eu tenha perdido a minha educação e jeito de lidar com as pessoas. É só que, prioridade você já não é, então não espere muita coisa, certo?

4 comentários:

  1. Que texto mais lindo hein rsrs.
    Super amei demais, parabéns.
    Seguindo https://blogdajenny2014.blogspot.com.br/

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  2. Que texto maravilhoso e com tanto sentimentos <3
    https://cinthiafabiana.blogspot.com.br/

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  3. Muito lindo post. Parabéns.

    Arthur Claro
    http://www.arthur-claro.blogspot.com

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