sexta-feira, 16 de março de 2018

Confusão

Querido amigo, como você vai?
São quase dez horas de uma manhã de sexta-feira calma e de céu limpo. Daqui a pouquinho o sol bate no corredor laranja da minha casa, entra pela janela e ilumina meu quarto inteiro, ai vou poder desligar a luz que me ajuda a enxergar as letras do teclado, responsável por me permitir escrever essa espécie de carta. Eu não sei sobre o que é isso. Deitei na cama ontem com vontade de te escrever, mesmo não tendo ideia do que eu queria dizer, e cá estou. Meu pai saiu pra trabalhar e, como sempre, não colocou uma almofada no lugar, a sala está uma confusão e logo mais eu tenho que ir lá dar um jeito nisso. A mochila, repleta de livros para serem lidos e redações para serem escritas, está me encarando ao lado direito deste home office e mesmo assim pretendo faltar no cursinho hoje. Calma, não fique bravo comigo. A verdade é que esse ainda vai ser um dia para estudar, só optei por não encarar a lousa e o professor de física que sempre fala em um idioma muito diferente do meu. A tarde quero tentar entender química, matemática e talvez escrever um pouquinho. Sei que será mais produtivo gastar minhas horas de hoje aprendendo no meu ritmo e sem ouvir alunos desesperados para mostrar ao professor como eles conhecem a matéria. Depois alguém me passa o conteúdo. Eu preciso respirar um pouco. Lá fora a rua está mais silenciosa do que o habitual, não se calando completamente só por conta de um latido de cachorro ou canto de passarinho. Eu gosto disso e da sensação de estabilidade falsa que me passa.
Para ser honesta com você, as últimas semanas tem sido confusas de uma forma que mal posso explicar. É como uma série de testes para saber quem é aprovado em uma possível vaga na vida adulta e quem fica pra trás. Minha mãe daria risada ao ler isso e qualquer outra pessoa mais velha diria que eu sou jovem demais para reclamar tanto, mas eu espero que você entenda.
Ainda vejo as amigas com frequência, mas é estranho não ter mais o celular tocando a todo instante com notificações de mensagens que, na realidade, eram só algum link de vídeo bobo. Queria que redes sociais não tivessem esse poder. É louco pensar que aquele sinalzinho vermelho em cima do ícone do whatsapp não fará muita diferença no meu dia, mas a falta dele fará, gerando um sentimento de solidão e abandono sem nexo. Sempre parece que a vida dos nossos contatos está mais interessante que a da gente né? Mas acho que na verdade só tá todo mundo correndo muito e torcendo para ter algumas pausas pra relaxar. Pausas que trazem esse sentimento de solidão às vezes, droga! Mesmo sendo racional, é difícil não sentir falta das horas conversando com minha melhor amiga, falando sobre os crushes e discutido teorias. Tudo bem, é nessa idade que as pessoas começam a correr atrás daquilo que querem ou pensam que querem, ela deve estar cuidando dos próprios assuntos. Eu deveria cuidar dos meus também.
Quando passo em frente à casa daquele amigo de longa data é difícil evitar olhar de canto de olho lá pra dentro, mesmo sabendo que ele se mudou a algumas semanas e agora está em São Paulo cursando uma faculdade cujo o nome eu não consigo decorar. Logo me lembro:
- Ei, qual sua campainha mesmo?
Eu dizia.
- É a terceira, ter-cei-ra!
Ele respondia revirando os olhos.
E assim foram dos meus cinco aos dezoito anos. Mas agora não é mais. Porque ele está lá, vivendo sonhos que talvez fossem os meus também. Não me julgue, não estou invejando a felicidade de alguém que eu gosto ou algo do tipo, sei que todos nós estamos em tempos diferentes e que não adianta querer ser igual. Mas... Sei lá, é estranho. Estranho como não ver o meu grupo da sala de aula todos os dias e não me estressar com suas grosserias, que nunca eram intencionais. Estranho como não ter a menor noção do que eles estão fazendo. Dizem que crescer equivale a ter cada vez menos amigos e perder o contato mesmo que sem querer, é difícil aceitar, mas entender é simples.
A autonomia que ganhei de uns tempos pra cá não é menos assustadora e odeio perceber que agora que tenho o poder de fazer da minha vida o que quero, não sei mais dizer ao certo aquilo que quero. Talvez, a gente seja mais decidido quando menor porque não tem ideia do peso que cada decisão tem sobre a nossa vida. Eu, que tinha o nariz sempre tão arrebitado pra falar do meu futuro, me pego pensando se moldei meus planos com base naquilo que todo mundo faz ou se realmente sempre tive tais vontades no coração. Será, afinal de contas, que tenho seguido um caminho contínuo, ou só andando em círculos feito uma boba? O dinheiro que meus pais tem gasto com meus estudos tem valido a pena? Eu deveria parar de mirar faculdades que talvez sejam boas demais pra alguém que não decora nada sobre átomos e ligações covalentes? Desmarcar aquela entrevista foi um erro? Queria saber quase no mesmo nível em que desejo a confiança da minha versão de quinze anos de volta. Agora isso tudo só me da um nó na garganta.
Parar de me autossabotar também é um desafio diário. Paloma, a dezoito ano travando brigas consigo mesma.
- Então que dizer que a senhorita quer fazer a esforçada hoje?
Diz meu lado mais detestável.
- É, talvez eu queira sim.
Respondo, sabendo que deveria ter ficado quieta.
- Vai sonhando.
E assim eu travo em cima da cama de novo, cubro a cabeça com meu edredom roxo e volto a pensar em coisas que eu deveria estar realizado. Ah, malditas sejam essas metas que só dependem de mim. Eu costumava me achar tão autossuficiente e agora só penso que sozinha não vai dar. Mas, você sabe, currículos não se distribuem sozinhos, mães não marcam mais suas consultas e, se você não cuidar bem do seu dinheiro, ele some. Bem, sozinha vai ter que dar.
Querido amigo, dito e feito, o sol agora ilumina meu quarto e o cômodo da frente quase inteiro. Desculpe encher sua paciência com tanta baboseira, mas como não lhe escrevo há algum tempo, acumulei muita bagunça nesse peito. Eu queria que você pudesse responder às questões feitas aqui e me ensinar a lidar com cada uma delas, mas sei que isso é tarefa pra eu resolver por conta própria, mesmo que quebrando a cara e escrevendo centenas de textos confusos como esse. Você conseguiu entender o que eu lhe disse, afinal?
Bem, que seja o que tiver de ser. Eu só preciso tentar.
Obrigado por ouvir.
Dá sua Paloma.

2 comentários:

  1. Adoro ler textos assim que simplesmente fluem naturalmente.
    Eu entendi suas preocupações, pois eu também, estou iniciando algumas delas na minha mente. O futuro é meio assustador. É estranho quando o nosso tão sonhado e bom futuro, depende de nós nesse presente ainda tão bagunçado, e confuso.
    Algumas das suas preocupações posso imaginar, e eu não quero fazer 18 anos. Eu só queria ser uma criança, sem tantas preocupações.
    Só nós mesmos podemos lidar com as nossas próprias situações. Mas como? Só o nosso coração que sabe, bem lá no fundo.

    (Eu escrevo isso em uma madrugada, eu já deveria estar dormindo, mdss)

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    1. Geórgia, se tem algo que eu queria ser nesse momento é criança. Concordo muito contigo! hahah.
      E aliás, acho que você definiu perfeitamente, é assustador pensar que nosso futuro está diretamente ligado as coisas que fazemos agora no presente.
      Enfim, eu fico muito feliz que você tenha escolhido esse texto pra te fazer companhia na madrugada ♥

      Beijos ♥♥

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