sábado, 26 de maio de 2018

Quando o perdão chega

Hoje foi um dia bom. Sem grandes acontecimentos, sem novidades, sem surpresas, mas bom. Acordei cedo, comi a tapioca da minha mãe, rodei o centro comercial da cidade com uma amiga, tirei algumas fotos, joguei conversa fora e agora estou aqui, em frente à tela quase totalmente em branco desse monitor, tentando entender porque, embora o dia tenha sido bom, meu coração pediu para que eu escrevesse sobre você. É estranho como, volta e meia, esses desejos fora de contexto são quase maiores que a gente né? Como quando se quer chorar em meio a uma festa, ou as vezes em que uma situação séria nos força a sufocar o riso sem sentido. Tá certo, dessa vez eu cedo a vontade, mesmo não a entendendo muito bem.
Talvez seja o clima de junho (meu mês favorito e que está logo ali) amolecendo meu coração já ressentido á um bom tempo, ou quem sabe até o episódio final da nova temporada de uma das minhas séries favoritas (ele mexeu mesmo comigo), mas notei que não dói mais... Nada daquilo dói. E não pense que eu não tentei me ferir sozinha, relembrando todas as palavras ruins que você já me disse, todas as situação difíceis em que me meteu e todas as vezes em que jogou comigo para conseguir o que queria. Sobre essa última parte eu guardava mais rancor, até mais de mim mesma do que de você, porque sempre me julguei suficientemente esperta para não cair na lábia de ninguém (pobre criança). Mas em relação a isso eu já me perdoei e, hoje, pela primeira vez, de todo meu coração, quero dizer que te perdoou também.
Não vou mentir, enxergo com clareza seu rosto e ouço com mais nitidez ainda sua voz, como se houvéssemos nos esbarrado na rua ontem, e isso, até algum tempo atrás, me causava arrepios e me embrulhava o estômago, mesmo que daqui a alguns dias vá fazer um ano desde a última vez em que troquei meia palavra com você; Mas hoje, nesse 25 de maio completamente aleatório, em que a única coisa que interessa de verdade é o preço da gasolina, eu notei que toda parte do meu passado que te envolve é, de fato, passado. Todo o choro, mágoa e ódio que pareciam criar raízes dentro de mim, foram cortados junto com aquele cabelo enorme que eu tinha e fiz questão de me livrar, em parte porque não queria que você me conhecesse mais. Agora eu vejo que independente do corte de cabelo e do estilo das minhas roupas, você não seria capaz de me reconhecer.
Algumas coisas mudaram: a cor das paredes do meu quarto, que você tanto frequentou, as fotos penduradas no meu mural, a minha forma de encarar a vida, agora mais leve e sadia, e a minha vontade de te ver sentindo tudo aquilo que senti, que passou a ser igual a zero. Não se lembre de mim quando alguém te falar que quer cursar jornalismo, quando planejar com outra pessoa as viagens que planejávamos juntas ou quando o rádio tocar aquelas músicas brasileiras meio alternativas, que você sempre disse que eram a minha cara. Tudo está diferente agora, não por fora (ainda moro na mesma casa, saio com as mesmas pessoas e tenho os mesmos hobbies), mas por dentro. As paredes de dentro também mudaram de cor. Mesmo mantendo muitos dos defeitos da nossa época, agora me sinto mais independente, bonita e até inteligente. Parece bobo, eu sei, mas você me diminuía ao ponto de me tornar uma versão retraída e amedrontada de mim mesma, então me sentir assim tão livre é algo a se comemorar.
Ainda não entendo porque me sugar te fazia tão bem, é algo que vai muito além das capacidades de interpretação do ser humano que eu penso que tenho, mas sei que não te deixar entrar por completo na minha vida era um instinto involuntário que me avisava sobre algo. Isso te irritava muito, me lembro, não querer amizade sua com a minha irmã, não te convidar para almoçar aqui em casa, nem te tratar como eu tratava as minhas melhores amigas... Eu juro que tentava te incluir por completo, mas sempre pareceu errado. Já conseguiu me perdoar por isso também?
Minha psicóloga disse que esse dia ia chegar, me assegurou que com o tempo, a raiva repentina que me atacava em meio a um banho quente ou minutos antes de pegar no sono, ia ser só lembrança do passado. Eu confesso, idealizadora como sou, pensei que seria diferente. De início achei que nada do que eu sentia fosse mudar até que você me pedisse perdão, mas você não é do tipo que pede perdão, então acreditei fielmente que no dia em que eu me tornasse maior, mais bem sucedida e mais feliz do que você, o jogo teria terminado. Mas o jogo terminou quando eu consegui fugir e, pasme, nenhuma de nós saiu vencedora. Você foi para o seu lado, sem nem notar que me feriu com seu caráter pobre, e sem ter a menor noção de que o que vai, volta (e às vezes volta até mais forte), e eu, fui para o meu canto também, com pedaços faltando e arranhões dos pés a cabeça. Isso afetou muito a forma com a qual eu lido com as pessoas, até hoje preciso trabalhar a minha confiança e intimidade com elas, mas tem ficado mais fácil, não que você queira saber.
E esta é a lição final da história, cuja única coisa boa foi os aprendizados que deixou. O perdão está intimamente ligado ao tempo. Ele pode vir depois de um mês ou um ano, mas sempre virá em um período impossível de determinar. Até lá a gente sente raiva, frustração, mágoa e uma pontinha de tristeza que, querendo ou não, resulta no choro escondido debaixo do chuveiro. Mas um dia ele chega como quem não quer nada, em uma sexta onde o noticiário anuncia coisas mais importantes ou em uma segunda atarefada, e é um alivio lembrar daquilo que adoeceu e se sentir saudável mesmo assim. Não vai ser um acontecimento grande, eu aviso, mas uma boa surpresa que só nós mesmos podemos notar. É libertador e é um sinal verde para seguir em frente. É, a propósito, a única maneira de seguir em frente de forma verdadeiramente plena. Escrevendo esse texto eu percebo que é algo bonito de se notar, você não acha? Bem, a sua resposta eu nunca vou saber... Que sorte.
Tenha uma boa vida. Que ela seja capaz de te ensinar tudo aquilo que a nossa história não pôde.

1 comentário:

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