quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Um ponto final

Ei, como você tem passado? Faz tempo desde que trocamos algumas palavras né? Os livros que você me emprestou ainda estão na minha prateleira, nem cheguei a terminá-los e é pouco provável que eu chegue a devolvê-los também. Mas do que eu consegui te conhecer ao longo desses anos, sei que você não deve mais se lembrar deles. Quais são as coisas mais importantes agora? Ainda são as festas? São as pessoas que conheceu a pouco mas que são legais o suficiente para merecerem sua confiança? São os amigos que te levam até os lugares que eu nunca tive vontade de conhecer? É, as suas personalidades realmente combinam mais. 

Bem, essas palavras são só pra dizer que lamento muito por você ter demorado tanto pra perceber que já não eramos a mesma coisa, mesmo que eu já tivesse notado isso nos primeiros meses do ano passado. Ainda me surpreende como conseguimos arrastar essa amizade em cacos por tantos meses e me assusta ainda mais como a sua ficha só caiu quando não viu o seu rosto no meu feed do instagram. Eu sei, pode ter parecido imaturidade da minha parte, mas a verdade é que por mim as fotos ainda estariam lá, eram lindas mesmo. Mas eu sei como essas coisas significam algo pra você, e eu sabia que isso é quase como desenhar pra alguém que não entendeu todas as conversas anteriores. Você nunca acreditou que eu iria embora de verdade, mesmo com as várias vezes em que deixei bem claro que não podia mais lidar com sua desconsideração. Consegue imaginar como eu me senti quando notei que você só me levou a sério depois que exclui algumas postagens?

Desde então não tive mais notícias suas e em parte é bom não ter mais que ignorar suas mensagens, ou ver você me chamar pra conversar só porque percebeu que eu tenho dado mais atenção para as minhas melhores amigas do que para a sua pessoa. Mas por outro lado é estranho, metade de mim ainda diz que fui eu que te perdi. E eu penso sobre tudo o que queria te contar: sobre como tenho cogitado passar mais algum tempo na terapia, sobre a minha família que já não faz mais tanta questão de estar junta, sobre os estudos e o cursinho que tem ido ladeira a baixo. Eu queria te mostrar aquelas cicatrizes e te ouvir dizer que é melhor eu começar a me cuidar ou que vai ficar tudo bem, uma hora ou outra. Mas ai me lembro: já tem tanto tempo que não nos tratamos assim. Ter você aqui só pesaria mais um pouco. É uma coincidência infeliz que nossos caminhos tenham seguido por lados completamente opostos no mesmo instante em que minha vida decidiu se deixar levar pela correnteza. Isso faz parecer que ter te cortado de vez da minha rotina foi uma decisão ruim, mas nós sabemos que não foi (e essa é só mais uma das minhas paranoias).

Eu não vou sorrir e dizer que já está tudo bem. Você ainda faz muita falta por aqui, porque não se apagam amizades de anos assim e, tendo em vista que já te considerei meu irmão, é muito difícil esquecer quem é da família. Passei as últimas semanas pensando sobre o abraço desconsertante que demos na última vez em que nos esbarramos no shopping e, como dava pra notar no olhar de cada um, que o que mais queríamos era ter evitado aquele pequeno acaso. Quem poderia prever que um dia nenhum de nós saberia onde o outro está? As pessoas nem me perguntam mais sobre você e sinto que nossas imagens estão finalmente se desvencilhando. "Nós" rendemos cada vez menos parágrafos, por mais que a saudade ainda tente sufocar meu peito e mesmo sabendo que nem todo mundo é digno desse sentimento.

Queria saber se ainda tem alguma curiosidade sobre a minha vida, assim como eu gostaria de ouvir sobre como tem ido a faculdade que seus avós te influenciaram a fazer, qual é o status daquele antigo rolo seu e se já mandou para o lixo o presente de aniversário que eu te dei ano passado. Caso não tenha o jogado fora, é difícil olhar pra ele? É tão difícil quanto ler a carta ou olhar a foto que coloquei junto? Essas e mais um monte de questões vão morrer entaladas na minha garganta até o dia em que eu tenha curiosidade sobre a vida de outra pessoa. Nesse dia a lembrança de que nosso antigo grupo provavelmente se distanciou por conta dos nossos conflitos não vai mais me fazer sentir nenhuma culpa e talvez eu já até tenha encontrado alguém que me faça rir tanto quanto você fez. Mas hoje, só o que me resta é aprender a lidar com a falta daquilo que já foi bom e entender que a vida precisa de certos cortes e mudanças para seguir em frente. 

Enquanto digito essas palavras percebo que, pela primeira vez, ao terminar um texto sobre você, não vou encontrar a sua foto indicando uma nova mensagem na minha lista de conversas. Finalmente, um ponto final não é outra coisa se não um ponto final. Conclusivo e definitivo.

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