terça-feira, 18 de setembro de 2018

É cansativo, é pesado e é frio

Eu arrumei as camas, troquei de roupa, com um pouco de esforço escovei o cabelo e arrastei meu corpo até a rua. O sol, pelo qual sempre fui apaixonada, não me faz mais a mínima diferença. Peguei o ônibus para ir até a cidade ao lado mostrar o resultado dos exames a minha médica. Baixei um episódio de uma das minhas séries favoritas pra ver no trajeto de uns quarenta minutos, mas não tive animo de assisti-lo, ao invés disso, fingi escutar música. Digo fingi porque nada ficava nos meus fones de ouvido por mais de um minuto. E assim fui, ignorando a letra, me irritando com a batida e trocando a canção, repetida e quase que obsessivamente. Agora, já em casa, depois de fazer as tarefas domésticas em um ritmo brutalmente lento, olho para essa tela parcialmente em branco e me pergunto quando foi que as palavras deixaram de ser minhas melhores amigas.
Se você olhar de perto talvez só consiga enxergar um daqueles velhos e conhecidos dias ruins, monótonos, massivos e entediantes, mas, se prestar um pouquinho mais de atenção e ampliar seu campo de vista, talvez me entenda. Então dê alguns passos para trás e se atente aos detalhes, por favor.
Já tem alguns meses desde que me interessei por algum livro. É estranho porque eu mesma sempre quis escrever um. Mas agora, se leio algumas páginas, só tento me obrigar a criar algum vínculo com aquela história que, na verdade, não me diz nada. Também tem sido assim com a música. Era besteira, mas conhecer bandas e sons novos era quase o mesmo que descobrir um tesouro só meu. Me tocava, me fazia pensar que, de algum jeito, aquelas letras chegavam até mim por algum motivo. Agora não. Só ouço as mesmas batidas genéricas e ai das plataformas que tentarem me apresentar alguma novidade. Eu só espero que a canção, seja ela qual for, não me diga nada, não me desperte nada e não me signifique nada.
Mas, pra ser contraditória, nunca dancei tanto pela casa. Com o volume no último e algum hit que as rádios não se cansam de nos enfiar goela abaixo, eu finjo que estou distante, em alguma festa sem muitos rostos conhecidos. Lá talvez eu tenha a chance de conhecer novas pessoas, que mudem um pouco o ritmo sem sentido em que meus dias seguem. Lá eu posso conhecer alguém que me desperte de novo a vontade de colecionar textos e histórias, que me faça pensar que o amor não é tão ruim assim como dizem e que se torne a parte que falta em mim mesmo que eu ainda não saiba dizer qual é. Ou, até mesmo, faça amizade com alguém que me pergunte se está realmente tudo bem, porque o meu "tudo bem" não tem soado tão verdadeiro assim. Um melhor amigo viria bem a calhar, o meu eu não tenho encontrado a um bom tempo, mas estou tranquila porque sei que ele tem se divertido bastante.
Sabe, acho que de onde você está, pode conseguir enxergar para onde correu a minha vontade de fazer qualquer coisa além de ficar na cama. Se a encontrar, me faça à gentileza de pedir que ela volte pra mim, às coisas tem sido um pouco difíceis sozinha. Se ela parar de graça e voltar aqui pra casa, eu posso finalmente largar o celular que não sai da minha mão e sempre coloca na minha cabeça a ideia de que a minha vida é tão menor que a dos outros. Que incrível seria, não é? Nunca achei que pensar em acordar disposta e sem a sensação de que a noite me deixou ainda mais cansada se tornaria algo surreal. Não se assuste! Acho que agora, como olhou um pouco mais adiante, você deve estar vendo todas as formas de autodestruição que tomaram conta de mim, bem, se isso te parecer demais, diga para si mesmo que está tudo ok comigo e que isso não passa de uma fase de indisposição. Deus sabe que é isso o que todo mundo faz.
Eu espero que entenda porque tenho estado paralisada. É cansativo, é pesado e é frio. É como correr por um trajeto que não vai levar a nenhum lugar e, se não vai levar a nada, porque é assim tão importante levantar da cama? Porque é tão importante querer me levantar? Eu não queria que tivéssemos chegado ao ponto em que viver deixou de ser a coisa mais incrível desse mundo e passou a ser algo que se faz por fazer, mas acredito que é nele que estamos agora. Engraçado que, mesmo assim, se eu der mais alguns passos para trás, consigo, com um campo de visão ainda mais ampliado, enxergar algo aparentemente bom ao fundo dessa bagunça toda. Talvez eu possa ir até lá ver o que é. Você vem comigo?

1 comentário:

  1. Talvez ainda não tenha enxergado a força que possa fazer com que levante, pois tenha que se reconhecer novamente, a aprender a ver a quem realmente é quando se está em frente ao espelho e com isso viver voltará a ser incrível novamente.

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